pintura

segunda-feira, outubro 04, 2010

Corpo tangível_JL_Rocha de Sousa



OLHARES
Rocha de Sousa

Maria João Franco
CORPO TANGÍVEL

A certa altura da vida, Maria João Franco sentiu o seu corpo partido em dois, entre um silêncio frio e um fact0 lancinante. Metade de si soçobrava com a morte de alguém. E a outra metade, ardente e tangível, teve de abraçar toda a vida já vivida, além da que estaria para se acercar de si, a cobrar-lhe as contas do presente e do futuro. O sonho de então foi simultaneamente tumular e sangrento, sobretudo através de uma pintura que tinha de ser feita, assim, segundo o protesto surdo do medo, na solidão e na intransigência das imagens. É por isso que ela parece ter fixado um estilo, um imparável modo de formar.
Maria João vive, digamos assim, uma ancoragem inabalável à memóroa do corpo que ainda lhe resta e que representa, afinal, dos ângulos mais difíceis, na vertigem mais insuportável, assumindo todas as diferenças e todas as semelhanças com a matéria orgânica, os metais brutos, a pedra cinzelada de forma a sugerir diversos pontos de decomposição e restos ainda lisos da pele. Pele por vezes amaciando músculos aquém das mutilações pressentidas ou mesmo expostas.
Esta prioridade conferida ao discurso matérico, de alguma violência, tem de se compreender a montante e na hora em que a escolha está contida num espaço restrito, no estreitamento da dor. Fazendo da sua metade anímica um projecto de vida, um modo de se exprimir pela totalidade, Maria João abriu à força das mãos um caminho ao mesmo tempo preciso mas quase insustentável nas insistentes dilacerações. O corpo era assunto e era tema, minuto dos instante tangíveis em que tudo se duplicava pelas entregas, um abraço de desejo, de partilha, exposto como nudez escultórica, bronze ou pedra, tudo vertido para a palpitação textural da pintura — medida, tempo, angústia. Os meios de instauração plástica traduziam, assim, uma ampla oratória dos gestos, grafias insondáveis, recortes perceptíveis, o habitual e antigo desafio da expressão aos limites da percepção. Mas o sofrimento e a grandeza destacam-se da massa, presos no campo como os contrastes da forma fingidamente inacabada dos «Escravos», de Miguel Ângelo.

Os nomes intensos e humanos
Maria João Franco não tem sido eleita entre os eleitos, apesar da sua obra juntar tradições modernas com nomes intensos, com valores de um profundo sentido do humano. Hoje voltam a ser louvadas as «histórias», em contradição com a anterior exigência incontrolável da forma abstracta: porque os restos figurativos da perplexidade e da revolta já só tinham lugar museológico e nenhum futuro à vista. Quem retratava ou representava, fazia bonecos, circunscrevia-se ao pior da tradição, pequeno discurso de narrativas ilustradas. Mas as ideologias da estética totalitária mão tinham verdadeiro cabimento no domínio das disciplinas de índole artística, porque, como já tenho sublinhado, a arte não se realiza sob o império dos dogmas nem se encerra num só tamanho da verdade na variedade. Todos os modos de dar força expressiva à comunicação pelas imagens, por exemplo, são processos de um fazer entregue ao imaginário, tornando os sonhos coláveis ao real para o «tornar visível». E as artes mais se abriram à inovação, a matérias e formas surpreendentes, inundando o espaço social de uma grande harmonia de discursos não coincidentes. Isso dá nome à civilização que entretanto se globaliza e aceita fazer-se sobre o fio da navalha.
Na sua consolidação tremendista, a pintura de Maria João Franco pratica uma certa convocação rochosa do corpo humano — ou do corpo simplesmente. Dois caminhos têm

2
confluido para isso, a dor da perda e graves impressões do exterior, encontro que sempre acabou por devolver às mãos da pintora fragmentos amassados na devida
maturação, corpos recuperados sob o impulso da vontade poética, entre a morte e a vida. Corpos míticos, também, sonho transitado de alguma Renascença, memória problematizada dos clássicos e dos avanços expressionistas que se expandiram pelo século XX todo. O que se traduz em testemunho, em grito, em dilaceração, com a manipulação do gesto e das matérias (líquidas ou substanciais) por forma a ocupar o campo de presenças ao mesmo tempo carnais e de pedra. Fusão de metais igualmente, embora a verdade técnica se determine sobretudo no domínio da pasta acumulada sobre esboços gráficos ou já pulsantes e líquidos.

um trajecto de coerência e força
A forma plástica em Maria João Franco assenta, além de tudo, numa sedentarização positiva, de núcleo tormentoso, e desenha no espaço um trajecto de coerência, de proximidade significante entre as peças, o que determina grande continuidade das várias presenças, uma inusitada força nas massas pictóricas, de cor surda, onde por vezes um fio de sangue aflora, ou até na pele falsamente envelhecida sob a sua intocável frescura. De perto, visível a maior distância, nítido ou desfocado, quase metalizado, aparentemente escultórico, o corpo (assunto-tema) lembrado e representado por Maria João Franco é fruto de uma importante conquista em termos de discurso, na obstinação, na recuperação da imagem e da ideia — a liberdade do fazer, em suma, num aparente paradoxo que liga e desliga a memória dorida do corpo partido em dois e a necessidade de sublimar a brutalidade obscena dessa injustiça. Porque a liberdade de que a autora dá importantes provas, da metodologia escolhida aos materiais de instauração plástica,
não significa que ela esteja isenta de pensar o modo de formar, quais as razões da força ao petrificar-se, ao escorrer como tinta de facto, que objectivos aí se envolvem, que limites e regras assistem à própria amputação anatómica. Na verdade, Maria João sabe perfeitamente em que condicções está a agir e o que lhe sobra de talento depois dos cortes de acerto, das pessoas que premeia: ela cria processos de catarse para si mesma, sabendo, entretanto, que está processando um legado a alguém, com a marca de que as obras, no futuro, terão de conter um inalienável testemunho de vida.

Sem comentários: